quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vai para a máquina.

Não.

Vai comer.

Não.

Vai tomar banho.

Não.

Vai estudar.

...

Maria?

Ele espreitou por cima do livro, eu estava a tirar os cadernos da mala da escola. Vi um sorriso desconcertante na boca dele antes de ter escondido a cara atrás do exemplar d'"A canção de Tróia". Escrutinei a verdade da presença semi-fisíca dele encostado á porta do armário, sentado no chão em cima de uma almofada minha. Ele estava a tornar-se real demais para certas coisas, como voar e estar em sítios onde rapazes de 19 com um metro e oitenta não cabem. Ele tinha agora uma voz grossa que não tinha antes, vestia-se todos os dias diferente, mas como um adolescente normal, e não um drag esquisito. Hoje de manhã ele beijou-me a caminho da escola e dei por mim a ralhar-lhe que não o fizesse, que era estranho demais. Nunca foi estranho antes. Ele é que agora é menos irreal, e nenhum rapaz a sério faria isso a menos que estivéssemos mesmo juntos. Mas nós não estamos juntos, porque ele não é um rapaz real, não passa da minha consciência.

Não estás a estudar.

Ahem, pois.

Parei de pensar nisso e peguei nas coisas de Matemática com olhos de ver.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Eu não gosto de nenhum tipo.

Quem me dera gostar. Porque há quem goste de mim e mereça que eu o faça também.

quem me dera ter um coração decente.
Ele encontrou-me escondida debaixo da carroça da mula.
Deu-me um olhar preocupado e disse:
- O que se passa?
Eu funguei e respondi:
- Não quero ir para o casarão.
- Porquê? - Exclamou ele confuso.
- Porque a Sara Adão está lá.
Ele sentou-se debaixo da carroça comigo o resto da tarde, encostou-se a mim e segurou-me a mão. Assobiou muitas melodias de que eu já não me lembro.

Há muitas vezes, hoje em dia, que eu preciso de mais um Fred, e mais uma Sofia, mas eles já não aparecem.

Fico acompanhada, nesses momentos em que o ar foge, aterrorizado, dos meus pulmões, apenas por reflexos de vidro sem peso, que me embalam e limpam as lágrimas da minha cara com a parte de trás da minha manga.

Será por que deixei de fugir a meio das coisas para ir chorar, ou porque deixei de chorar á frente das pessoas de todo?