quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vai para a máquina.

Não.

Vai comer.

Não.

Vai tomar banho.

Não.

Vai estudar.

...

Maria?

Ele espreitou por cima do livro, eu estava a tirar os cadernos da mala da escola. Vi um sorriso desconcertante na boca dele antes de ter escondido a cara atrás do exemplar d'"A canção de Tróia". Escrutinei a verdade da presença semi-fisíca dele encostado á porta do armário, sentado no chão em cima de uma almofada minha. Ele estava a tornar-se real demais para certas coisas, como voar e estar em sítios onde rapazes de 19 com um metro e oitenta não cabem. Ele tinha agora uma voz grossa que não tinha antes, vestia-se todos os dias diferente, mas como um adolescente normal, e não um drag esquisito. Hoje de manhã ele beijou-me a caminho da escola e dei por mim a ralhar-lhe que não o fizesse, que era estranho demais. Nunca foi estranho antes. Ele é que agora é menos irreal, e nenhum rapaz a sério faria isso a menos que estivéssemos mesmo juntos. Mas nós não estamos juntos, porque ele não é um rapaz real, não passa da minha consciência.

Não estás a estudar.

Ahem, pois.

Parei de pensar nisso e peguei nas coisas de Matemática com olhos de ver.

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